Quarta, 12 Novembro 2008 00:00
No dia 12 de Novembro de 2008, pelas 18.30h, realizou-se a primeira Conversa com os Pais, organizada pela APEJ, subordinada ao tema “O Sucesso na Matemática”. Maria Manuel Torres e Adelaide Carreira, coordenadoras do projecto “Matemática a Brincar”, do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, vieram ajudar-nos a tentar perceber como podemos contribuir para o sucesso escolar e para uma aprendizagem sólida da Matemática, fundamental para o bom desempenho em quase todas as áreas do conhecimento.
A presença de um elevado número de pais/encarregados de educação é com certeza um indício claro da importância do tema e do interesse que ele suscita junto de nós.
Desta conversa destacaram-se algumas ideias-chave para a aprendizagem da matemática. Em primeiro lugar a importância da matemática na vida da humanidade e mais concretamente no quotidiano de todos nós. Assim, o desenvolvimento, desde cedo, de uma destreza intelectual vai ajudar as crianças em toda a organização/gestão da sua vida futura. A aprendizagem da linguagem matemática, pelo desenvolvimento cognitivo, pela agilidade mental que promove, servirá de alicerce e proporcionará a aprendizagem de outros conhecimentos, de outras linguagens (música, outras línguas…). Tendencialmente, um bom aluno a matemática é também um bom aluno nas outras disciplinas.
Em segundo lugar, foi referida a especificidade da matemática, associada à necessidade de desenvolvimento de métodos e competências próprias por parte do professor e do aluno. O trabalho matemático é particular: não há boa aprendizagem, nem bom ensino na matemática, se não houver esforço, dedicação e disciplina.
Os pais podem ajudar a desenvolver determinadas competências essenciais para o trabalho matemático, como seja a autonomia. Todos sabemos que, por vezes, os nossos filhos nos solicitam no sentido de os ajudarmos a resolver os trabalhos de casa. Há que não ceder à tentação de os substituirmos na procura do resultado. Devemos dar-lhes oportunidade de serem eles, autonomamente, a procurar as respostas. Tão importante ou mais do que a resposta é a procura dessa resposta e é esse trabalho que permitirá à criança fazer uma aprendizagem matemática com sucesso.
Os primeiros anos de formação são a base, logo, são extremamente importantes. As lacunas que ficarem na formação escolar são provavelmente “nós por desatar” que vão dificultar/inviabilizar a aprendizagem futura. Todavia, foi expressa a forte convicção de que o recurso a explicações não é a solução, podendo antes ter um efeito contrário, uma vez que cria na criança a ideia de que não tem de se esforçar, nem nas aulas, nem autonomamente fora delas, porque depois terá o apoio das explicações. Nas palavras de Maria Manuel “as explicações viciam mais do que a droga”.
Igualmente essencial para uma aprendizagem da matemática com sucesso é a necessidade de combater, por um lado, o sentimento generalizado de aversão à matemática e, por outro lado, uma certa “naturalização” dos maus resultados a matemática, que tendem a ser mais desculpabilizados do que os maus resultados noutras disciplinas. Quem nunca ouviu um pai ou uma mãe dizer: “Ai, eu também já era mau a matemática”?
Ainda que na nossa vida tenhamos tido um relacionamento menos bom com a matemática, não podemos transmitir às crianças esta representação negativa. Se o relacionamento afectivo das crianças com a matemática for logo à partida marcado por sentimentos negativos ou de que não faz mal ter maus resultados a matemática, dificilmente conseguirá desenvolver as competências necessárias ao trabalho matemático e, consequentemente, ao sucesso na matemática.
Na segunda parte da conversa deram-se alguns exemplos de actividades que os pais/encarregados de educação podem desenvolver com as crianças e que funcionam como auxiliares para o sucesso. Desde logo, evitar a submersão das crianças no mundo onde a imagem domina e lhes retira a capacidade de criar as suas próprias imagens/representações mentais, ou seja, que lhe diminui a capacidade de abstracção. Devemos tentar que dediquem menos tempo ao computador, aos jogos, à televisão, onde a imagem é rei. Devemos privilegiar a leitura de livros com poucas imagens e que dêem espaço à imaginação das personagens e situações. Contar adivinhas e trocadilhos é também um bom exercício, bem como contar histórias que contenham informação matemática e que, não só desenvolvem o conhecimento matemático, mas a própria cultura geral.
Despertar a curiosidade das crianças levando-as a descobrir coisas (idas a museus, oceanário, planetário…) é também essencial. Exercitar o cálculo mental com actividades do quotidiano é outra actividade que podemos facilmente desenvolver. Por exemplo, nas compras quando há uma promoção do género “leve 3, pague 2”, pedir que calculem a quanto sai cada unidade; na cozinha, ao executarem uma receita para 4 pessoas, pedir que calculem as quantidades necessárias para 12 pessoas…
Por outro lado, é imprescindível estar atento às suas aprendizagens na escola. Pedir que nos digam o que aprenderam e como aprenderam é uma excelente forma de conseguirmos fazer este acompanhamento e de valorizar, de dar importância, ao seu trabalho. Simultaneamente, a criança, ao explicar o que aprendeu, está ela própria a consolidar a sua aprendizagem. Pedir aos professores que à sexta-feira mandem para casa o caderno e os livros, para vermos o que estiveram a fazer durante a semana é também importante.
À pergunta “Devemos ajudar os nossos filhos nos trabalhos de casa?” a resposta foi “Não”. Idealmente, não devemos ajudar nem corrigir. Deve ser o professor, na aula, a corrigir os trabalhos, a identificar as dificuldades e a orientá-los na descoberta do caminho certo. Não quer isto dizer que, pontualmente, não possamos dar uma pequena ajuda. No entanto, esta deve ser no sentido de o orientar na descoberta da solução e não fazendo o trabalho por eles.
Mais uma vez se reforçou a ideia da autonomia: interessarmo-nos pela aprendizagem dos nossos filhos significa mantermo-nos atentos para perceber se têm dificuldades. Todavia, não devemos fazer as coisas por eles nem substituir o professor. Se forem identificadas dificuldades, em primeiro lugar é a ele que devemos pedir ajuda para que sejam ultrapassadas.
Muito haveria a dizer ainda com toda a certeza, mas o avançado da hora impôs que a conversa terminasse. Resta-nos agradecer a amabilidade e disponibilidade da Maria Manuel Torres e Adelaide Carreira, que nos proporcionaram de modo tão simpático esta interessante conversa.
