Domingo, 17 Janeiro 2010 11:54
Arquivos - Algures, lugares de...
Uma mesa cheia de feijões.O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.O primeiro gesto, o de reunir, aurar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.A civilização é um fenómeno colectivo.A cultura é um fenómeno individual.Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.
Almada Negreiros, in "Ensaios"
A BIBLIOTECA ESCOLAR, TALVEZ UM NOVO CICLO…
A denominação Biblioteca Escolar / Centro de Recursos Educativos tem sido o timbre para acercar a sua intervenção muito no apoio ao currículo e ultimamente à leitura.
Numa altura em que o termo cultura (práticas culturais, consumo e produção), ainda perdure indiferente da prática da instituição Escola, onde as expressões artísticas perdem espaço e tempo nas rotinas diárias, recaindo-se no consumo ou tarefa superficial e rápida, sem enquadramento prévio e/ou posteriori, a Biblioteca Escolar, que por si subentende recursos educativos, nomeadamente no apoio ao currículo, pode ter um papel desencadeador de novos desafios, a toda a comunidade escolar, em particular e prioritariamente aos alunos, acompanhando a sociedade e ao mesmo tempo demarcando-se desta pela diferenciação, incrementando processos de aquisição de novas aprendizagens, que poderão gerar algum conhecimento - cultura. Este é o meu intento e empenho como professor bibliotecário do 1º ciclo, assim ocorram as condições para que tal aconteça.
As Bibliotecas Escolares de Agrupamento, estão em fase de alguma transformação interna, ao deixarem de serem um somatório de BEs, recurso de cada escola e passarem a serem recursos de Agrupamento. Assim, uma nova aprendizagem na forma de trabalhar, terá de acontecer.
A candidatura desta BE à RBE foi importante, não só pelo lugar de professor bibliotecário, mais um novo recurso, como pelo enquadramento do Protocolo, assinado a 23 de Abril de 2009, entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Rede de Bibliotecas Escolares, treze anos depois de este projecto ter sido iniciado.
Assim, depois das Bibliotecas Municipais de Lisboa se terem preparado para esta nova realidade, a 16 de Dezembro na F.C. Gulbenkian, o começo de uma nova existência, a primeira reunião entre as Bibliotecas Escolares das Escolas de Lisboa e as Bibliotecas Municipais, para a explanação do trabalho em rede, através do futuro Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares.
O aparecimento desta separata no jornal da escola, que não pretende ser um boletim, embora possa ter alguma informação, é o pré início de um periódico da Biblioteca Escolar da EB1 Santo António e Jardim-de-Infância nº 2 do Campo Grande, onde se vão privilegiar trabalhos de alunos, escritos e gráficos, não necessariamente os premiados de possíveis concursos, mas os que, por diversas razões, devidamente enquadradas, merecem a divulgação como estímulo a um percurso, experimental e evolutivo, em que o aluno se propõe desafiar a si mesmo, face a propostas, sugestões de, na e apoiadas pela Biblioteca Escolar.
Já agora uma sugestão para o Natal que se avizinha, pegando nas palavras da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, “... o livro é uma festa!”, oferecendo um livro ao seu filho, o Natal fica mais festivo e quem sabe se não é um começo de uma relação ou a continuidade desta.
Um livro pode desenvolver a sensibilidade, o gosto pela palavra... uma história onde a solidariedade, a verdade, o sonho, a justiça, o amor e tanta coisa mais tenham lugar, poderá aumentar o saber de quem lê ou de quem ouve ler.
Lua meia nova
Há muito pouco tempo, desde que chegámos ao mar alto, revemos as imagens das histórias que de nós podemos contar. E assim podemos:Ver passar as estações, saber que é bom o tempo passar; o vento toma a forma de uma voz que nos conta histórias; as folhas caem e podemos guardá-las entre o papel dos livros e descobrir que têm o mesmo nome; a chuva cai para fazer correr os rios, aqui se torna água-doce, segue o seu curso e vai ter com o mar; depois saber que aqui pode ter o nome de água-mãe, e é bom; o sol aparece, dá-lhe calor e agora vamos tomar um grande banho.Depois podemos descobrir que nem sempre é fácil chegar às coisas altas, como as lâmpadas que são as luas que temos cá dentro do quarto, e que como a de lá de fora ilumina quem aqui está. E sabemos como é estranho andar entre corredores e mais estranho ainda que não cheguemos às maçanetas das portas. E porque há sempre uma maneira de sair, aprendemos a olhar pela janela e a saber como se pode voar tão alto que se consegue tocar a luz e ver, como ela, tudo do alto.Num instante crescemos e já podemos ver as pessoas perto dos olhos, damos-lhe um beijo na testa e dizemos “aqui estou!” A seguir chegamos ao espelho sem ser preciso que nos ajudem e agora podemos ver a nossa cara e não a de quem nos pega ao colo, e sabemos a alegria de estarmos aqui agora.Altos, conseguimos abrir todas as portas e andar pelas ruas, saber-lhes os nomes e tratá-las como amigos porque lhes conhecemos todos os cantinhos. Alguém nos conta a história do filho do arquitecto – que é mesmo o senhor que desenha as casas e lhes dá as cores – que conseguiu sair de um lugar muito difícil (o labirinto, uma espécie de uma rua muito grande e confusa) porque fez umas asas e voou. Mas agora que já cá estamos fora, lançamos balões e voamos com eles, temos vontade de saber outras histórias.E chegamos à melhor parte da escola que é aprender a unir as letras, a formar as palavras, a acompanhar as linhas que percorrem as imagens dos filmes, e, como um livro de histórias, poder contá-las aos amigos ao nosso lado.Ou então aprender que, como a nossa, há famílias de palavras e se as dissermos em voz alta elas se tornam uma espécie de música: sai de nós, todos as podem ouvir, acompanhar. Anos mais tarde, sabemos que há uma espécie de música sem flautas nem pianos – chama-se poesia – e é bom que se possa ler e ouvir de uma forma assim alegre.Como o mundo é grande, queremos saber onde estão tantas coisas e por isso aprendemos a ler os mapas como um desenho cheio de linhas que nos ensina a saber onde estão os lugares a que gostávamos de chegar e aqueles a que de certeza vamos voltar.Depois descobrimos que não são só as nuvens que desenham animais e pessoas. Aprendemos a olhar para o céu e a descobrir as imagens que as estrelas formam, a espantarmo-nos com as muitas linhas que as unem e com as histórias que contam: como a de dois irmãos, Castor – muito feliz porque era filho de um deus-cisne – e Polux, um bocadinho triste porque era filho de um homem normal - , que combinaram dar um ao outro o que tinham, bom ou nem por isso, de maneira a poderem ver os dois lados da lua, o da sombra e o da luz.De repente, assustamo-nos quando olhamos para a lua e parece que lhe falta um bocadinho de si, mas logo logo aprendemos que ela é mesmo redonda, apesar de durante algum tempo estar escondida do outro lado, aquele a que não chega o sol. Passado algum tempo, mas não muito, sabemos que a terra roda à volta do sol e que a lua roda à volta da terra e que nesse laço-abraço estão todos bem e bem alegres. Também gostamos da alegria e queremos chegar assim a tão alto abraço: lançamos um balão com um bocadinho de nós – o ar – lá dentro e podemos estar assim perto, perto. E como crescer também quer dizer subir, crescemos, voamos bem alto e é bom, mesmo muito bom.
Texto de Diana Pimentel In COLÓQUI letras nº147/148
Periódico da Biblioteca Escolarda responsabilidade do professor bibliotecárioEB1 Santo António e Jardim-de-Infância Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar http:/oiebe.blogspot.comDistribuição gratuita # 0 Dezembro.09
Algures,lugares de...
algures e lugares, duas palavras com as mesmas letras, o espaço e o tempo, percursos …
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